CONVOCATÓRIA DO IX CONGRESSO DA FLAPPSIP

 

PSICANÁLISE, UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO – TEORIA, CLÍNICA E CULTURA

“O homem não se relaciona com o mundo como um sujeito com o objeto, como o olho com o quadro; nem mesmo como um ator no cenário de um palco. O homem e o mundo estão ligados como o caramujo e sua concha: o mundo faz parte do homem, ele é sua dimensão e, à medida que o mundo muda, a existência (in-der-welt-sein) muda também”. (Kundera, 2009 p. 40)

Pensar  o papel da psicanálise em um mundo em constante transformação com suas particularidades, suas  possibilidades e seus limites, tanto no que tange a patologia como a saúde, são desafios dignos de um congresso do porte que a FLAPPSIP se propõe a realizar em sua IX edição.

Se o mundo em que vivemos é marcado pela tecnologia que avança vertiginosamente, pela virtualidade que passa a ser uma terceira realidade, onde o que é moderno  torna-se ultrapassado num piscar de olhos, quando o homem vale pelo que aparenta, a sociedade é liquida e o narcisismo impera na cultura, como compreender as exigências impostas ao psiquismo nesses novos tempos?

Faz-se necessário refletir sobre o processo de subjetivação nessa época de mudanças que afetam não somente o campo do conhecimento e a tecnologia, mas que afetam também o comportamento, os valores, os conceitos éticos e morais, que nos defrontam com a multiplicidade de gêneros, com novas configurações familiares, com os diversos recurso que o congelamento de óvulos e a fertilização in-vitro permitem, entre outros tantos recursos que são também incógnitas de futuro. São questões que implicam um desconhecido a ser pensado.

O processo de globalização que encurta tempo e espaço, com a comunicação em tempo quase real,  permite que saibamos no momento do acontecimento o que ocorre pelo mundo, conecta-nos de forma quase absoluta com a fragilidade da soberania das nações,  com o terrorismo, com a crise ética institucional, com a fragilidade do Estado, com a corrupção sem limites, com a violência em todos os âmbitos, com o aumento da criminalidade, com um excesso de sexualidade abusiva e perversa.

Podemos vislumbrar a existência de novas formas de subjetivação, que fogem da lógica do recalcamento e da neurose, que circulam pela especularidade, que carecem de interdito e de capacidade simbólica, onde alienação, apatia e angústia são marcas comuns. Por outro lado temos reações no lugar do pensamento, as compulsões e adições proliferando, as doenças psicossomáticas, o falso ocupando o lugar do verdadeiro, o vazio no lugar do desejo.

Há um apelo pelo saber do outro, do que acontece fora mais do que o desejo por um saber sobre nós mesmos. A reflexão cede lugar para a ação, o conhecimento ocupa o lugar do sentimento,  a paciência é obsoleta diante do imediatismo, da premência, da intolerância diante da frustração, da necessidade de soluções e resultados rápidos.

Como a psicanálise se insere nesse tempo e nessa época?

Estará a psicanálise na contramão desse mundo novo em constante transformação?

A psicanálise não promete felicidade a qualquer preço, nem garante resultados.  Exige pensar, protelar a ação, clama pelo sonho e pede tempo.

Para garantir uma transformação precisa de tempo para investigar enquanto trata.

Como pensar a psicanálise nesse contexto tão propício ao cognitivo e comportamental?

Precisamos contextualizar as transformações ocorridas no seio da própria psicanálise, com seus avanços teórico-técnicos, as decorrentes ampliações e as necessárias adaptações, e pensarmos na flexibilização como uma palavra de ordem para enfrentar os novos tempos.

Há muito a considerar sobre a psicanalise e seu poder transformador da subjetividade humana.

Freud, ao criar a psicanálise propõe uma leitura da subjetividade, uma interpretação possível sobre o sofrimento humano, um modelo de pensamento que permite compreender o homem em seu contexto histórico e antropológico, da era vitoriana ao sujeito da pós-modernidade.

As teorias psicanalíticas e as experiências advindas da prática clínica permitem importantes aportes sobre questões complexas, quase sinistras, que circulam na sociedade contemporânea como a volta do co-leito,  a relativização do incesto, a tendência à depreciação do Complexo de Édipo, sobre a subjetivação a partir das identificações e a super valorização da determinação genética de gênero, para citar alguns.

A psicanálise tem muito a dizer sobre os males que afetam o mundo em geral e a América Latina em particular, males como a perversidade, o totalitarismo, o genocídio, o feminicídio, o abuso, a discriminação, a opressão das minorias e a indiferença.

O IX congresso da FLAPPSIP – Psicanálise um mundo em transformação – terá a oportunidade de contar com diferentes pensamentos, múltiplas abordagens,  pluralidades teóricas e a possibilidade de contemplar a diversidade, respeitando as diferenças. O intercâmbio científico e a troca de experiência permitirão uma compreensão de nossas idiossincrasias e o encontro de nossas semelhanças resultado de nosso patrimônio e  herança cultural comuns.

Porto Alegre os espera em 2017 com essa proposta e outras tantas que virão.

Diretiva FLAPPSIP 2015-2017

Denise Martinez Souza – Presidente – CEPdePA – Brasil

Viviane de Freitas Souto – SecretáriaGeral – CEPdePA – Brasil

Adriana MayMendonça – Tesoureira – CEPdePA – Brasil

Doris Cwaigenbaum – Secretária Científica – AUDEPP – Uruguai

Juana Luisa Lloret – Vogal – CPPL – Peru